Flip 2026: evento de abertura define Orides Fontela como poeta universal
Na abertura da 24ª Flip, o crítico Augusto Massi definiu Orides Fontela como poeta universal, destacando sua trajetória marcada por influências católicas, greco-romanas e zen budistas. A mesa lotada celebrou a obra da homenageada, que publicou cinco livros de poesia e ganhou o Pr
Orides Fontela é poeta universal, define crítica na abertura da Flip 2026
Na abertura da 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o crítico literário Augusto Massi definiu Orides Fontela como "poeta universal". A mesa lotada, com participação da poeta Marília Garcia, celebrou a trajetória da homenageada, destacando sua formação católica, cultura greco-romana e influência do zen budismo.
"Orides Fontela é uma poeta universal. Muitas vezes, a gente perde a dimensão diante do anedotário que envolve a Orides. Eu queria só sintetizar que ela é frágil e forte. Ela é alucinada e lúcida. Ela não é um sim, nem um não, mas é um sim que traz o não no seio", disse Massi.
Quem foi Orides Fontela, homenageada da Flip 2026
Orides Fontela é a homenageada da 24ª edição da Flip, que ocorre até domingo (26) em diversos espaços no centro histórico de Paraty. Ao longo da carreira, ela publicou cinco livros de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996). Com Alba, que tem prefácio do crítico Antonio Candido, ela ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Poesia.
Augusto Massi, crítico literário e professor de literatura brasileira na Universidade de São Paulo (USP), apresentou a trajetória literária da escritora. Ele disse que conduziu o público "pela mão" ao cruzar uma ponte, em uma travessia para o outro lado de um rio, onde o público pudesse chegar mais perto da poesia de Orides.
A poesia de Orides: do catolicismo ao zen budismo
Na apresentação, Massi destacou elementos que atravessam o trabalho da escritora: a formação católica, a cultura greco-romana, os estudos em filosofia e a experiência da poeta no zen budismo, quando há uma abertura às influências do Oriente.
"Em Rosácea, vem um poema muito conhecido dela, dos mais antológicos. Ela começa um caminho novo, não só pela [influência do zen budismo], mas é a primeira vez que ela fala da vida pessoal dela", relatou Massi.
Ele citou o poema Herança, que lista objetos "da avó materna, uma toalha (de batismo)", além de "do pai" e "da mãe": um martelo, duas chaves, um caldeirão e um lenço. "Não tem verbo, são coisas. É uma herança concreta de alguém de uma família pobre. É como se dissesse: 'a pobreza, na Orides, é a sua riqueza'. Tudo que ela reduz vira alguma coisa que se irradia de sentido", concluiu Massi.
A poesia visual e plástica de Orides Fontela
O professor ressaltou que, até Rosácea, Orides utilizava especialmente formas geométricas, abstratas, mitos e usava uma espécie de interlocutor que falava por ela nos versos. "Ela falava através da Penélope, da Rebeca, através de São Sebastião, agora ela fala dela", disse Massi.
Ele mencionou a relevância da pontuação e dos sinais gráficos na construção dos poemas. "O gosto da Orides é por uma poesia visual e plástica, o gosto pela imagem."
Um exemplo desse uso é o poema São Sebastião, que faz referência a um soldado romano que protegia os cristãos perseguidos pelo império. Como punição, ele é amarrado e alvejado por flechas. "No poema, a Orides, como sinais de pontuação, usa o travessão. O travessão já são as setas atravessando as palavras, o corpo do texto", analisou Massi.
O último livro: Teia e a consciência da morte
O último livro, Teia, foi publicado dez anos depois de Rosácea. "Ela demorou para fazer esse livro, é um livro em que ela parece que sente o fim, ela sente que a morte está chegando para ela", relatou Massi.
Ele fez um contraponto entre os poemas Teia e Coruja, publicado em Rosácea. "Não é mais a coruja, que é a caçadora, que é aquela que vai e abate. Essa poética ferina e cruel da primeira Orides. Essa teia é outra, ela fala que 'arma, armadilha' e que no centro da teia 'a aranha espera'."
Ao fim da apresentação, o professor citou o último poema do livro Teia, o último que ela publicou em vida: Estrela da Tarde. "Agora que ela vai morrer, que ela sabe que vai morrer, ela está escolhendo a estrela da tarde, a que brilha mais forte. E é uma que não precisa nem da alba [amanhecer], nem da noite. Ela é a primeira a brilhar antes da noite chegar e com muita intensidade."
*A equipe de reportagem viajou a convite do Instituto Motiva, patrocinador e parceiro oficial de mobilidade da Flip 2026.
Perguntas Frequentes
O que é a Flip?
A Flip é a Festa Literária Internacional de Paraty, evento anual que reúne escritores, críticos e leitores no centro histórico da cidade.
Quem foi Orides Fontela?
Orides Fontela foi uma poeta brasileira, autora de cinco livros de poesia, vencedora do Prêmio Jabuti com Alba (1983).
Qual a programação da Flip 2026?
A 24ª edição da Flip ocorre até domingo (26), com extensa programação cultural em diversos espaços no centro histórico de Paraty.
Quem é Augusto Massi?
Augusto Massi é crítico literário, professor de literatura brasileira na USP, amigo e editor de Orides Fontela.
Quantos livros Orides Fontela publicou?
Ela publicou cinco livros de poesia: Transposição (1969), Helianto (1973), Alba (1983), Rosácea (1986) e Teia (1996).