Crítica · Análises e Críticas

Documentário de Bodansky revisita carreira e destaca mudanças

ResumoO documentário Um Olhar Inquieto, de Jorge Bodansky, revisita a carreira do cineasta a partir de um sobrevoo de 1973 que flagrou indígenas Paiter Suruí isolados. A obra, exibida no Bonito CineSur, compara a ocupação da Amazônia em cinco décadas, evidenciando a persistência de padrões de exploração e deslocamento. A produção utiliza imagens de arquivo para confrontar passado e presente.

Em Um Olhar Inquieto, Jorge Bodansky revisita a própria carreira a partir de um sobrevoo de 1973 que flagrou indígenas Paiter Suruí isolados. O documentário, exibido no Bonito CineSur, mostra como a ocupação da Amazônia não mudou em 50 anos.

Fábio Wenzel
Fábio Wenzel Redator de Documentários · 31 de julho de 2026
Documentário de Bodansky revisita carreira e destaca mudanças
8.4/10
VereditoEm Um Olhar Inquieto, Jorge Bodansky revisita a própria carreira a partir de um sobrevoo de 1973 que flagrou indígenas Paiter Suruí isolados. O documentário, exibido no Bonito CineSur, mostra como a ocupação da Amazônia não mudou em 50 anos.

Em novo documentário, Bodansky revisita carreira e destaca mudanças

Em 1973, Jorge Bodansky era cinegrafista de uma TV alemã e sobrevoava os arredores de Aripuanã (MT) para registrar a criação da Cidade Laboratório de Humboldt, projeto da ditadura militar desativado em 1978. Com uma Super-8 na mão, ele filmou por acaso um grupo de indígenas Paiter Suruí isolados, que tentavam flechar o avião. As imagens nunca foram para a TV alemã e ficaram esquecidas no arquivo até serem digitalizadas recentemente.

Ao rever o material, o cineasta se perguntou: "Quem são esses indígenas?". Essa inquietação o levou a revisitar toda a carreira e a produzir o documentário Um Olhar Inquieto: O Cinema de Jorge Bodansky, exibido na mostra competitiva ambiental do Bonito CineSur, festival que ocorre até sábado (1°/8) em Bonito (MT).

O reencontro com as imagens esquecidas

Bodansky voltou ao local das filmagens para descobrir quem eram aqueles indígenas e para documentar como a região mudou. "No decorrer desse processo de pesquisar imagens eu acabei contando a minha história também. Então esse é um filme autobiográfico e que conta uma história que eu vivi", disse. Esse reencontro com o próprio arquivo virou o motor narrativo do filme.

Um olhar que permanece inquieto

Cinquenta anos depois, o cineasta afirma que sua forma de fazer cinema pouco mudou. "O título do filme é Um Olhar Inquieto porque acho que meu olhar continua inquieto. Eu sempre olho e procuro as coisas. Minha forma de me posicionar diante da imagem do cinema continua a mesma. Eu continuo fazendo esse tipo de cinema de aventura, de observação e preocupado com a questão social."

A continuidade, para ele, está na postura diante da câmera, não na paisagem. O que mudou foi o território e a vida dos Paiter Suruí.

O que mudou em 50 anos: dos Suruí à soja

Muitos daqueles indígenas morreram por doenças ou violências quando começaram a ser contatados. O projeto Humboldt, por sua vez, estava em ruínas. A paisagem do sobrevoo jamais foi a mesma. "Quando eu estive lá, era floresta até o horizonte. Hoje é soja até o horizonte", ressaltou Bodansky.

A câmera do cineasta, ao voltar à região, mostra que a exploração da Amazônia encampada pela ditadura militar segue atual. "Essa é uma forma de ocupação que começou na ditadura militar e que não mudou até agora", afirmou.

O modelo de ocupação que não mudou

Bodansky é direto ao apontar o problema: "Independentemente do governo que está de plantão, a forma de ocupar a Amazônia e de ver a Amazônia é a mesma. Você parte do princípio de que não existe nada lá e temos que ocupá-la e fazê-la produzir. Isso não leva em consideração que lá tem gente e que sabe o que quer, e que luta por isso."

O cineasta não vê solução vinda de cima, mas da base. Para ele, a saída está na organização da sociedade civil: "Hoje você vai a qualquer comunidade quilombola, ribeirinha ou indígena e eles estão organizados, têm representatividade, sabem o que querem."

O que o documentário acrescenta ao debate

Um Olhar Inquieto não é apenas um exercício de memória. Ao cruzar imagens de 1973 com o presente, o filme mostra que a lógica de ocupação da Amazônia permanece intacta, independentemente do governo. O valor do documentário está em conectar a história pessoal do cineasta a uma questão estrutural que o Brasil ainda não resolveu.

Bodansky não entrega respostas fáceis. Ele expõe o contraste entre a floresta que existia e a soja que ocupa o horizonte hoje, e deixa ao espectador a tarefa de refletir sobre o custo humano e ambiental desse modelo. Para quem acompanha a produção documental brasileira, o filme é um retrato honesto de um cineasta que segue procurando, com o mesmo olhar inquieto de 1973.

Perguntas Frequentes

Onde foi exibido o documentário Um Olhar Inquieto?

O filme foi exibido na mostra competitiva ambiental do Bonito CineSur, festival que ocorre até o próximo sábado (1°/8) na cidade de Bonito (MT).

O que aconteceu com os indígenas Paiter Suruí filmados em 1973?

Muitos daqueles indígenas morreram por doenças ou violências quando começaram a ser contatados. O cineasta não dá spoiler no filme, mas afirma que é a história que todo mundo sabe.

Como Bodansky descreve sua forma de fazer cinema hoje?

Ele diz que pouco mudou: continua fazendo um cinema de aventura, de observação e preocupado com a questão social, com um olhar que permanece inquieto.

Qual é a principal crítica do documentário?

A de que a forma de ocupar a Amazônia começou na ditadura militar e não mudou até agora, independentemente do governo de plantão. A solução, para Bodansky, viria da organização da sociedade civil.

Este texto foi produzido com base em reportagem da Agência Brasil. A repórter viajou a convite do Bonito CineSur.

Leia também

Publicidade