Crítica · Análises e Críticas

Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos

O Vale do Café celebra os 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha, com o 5º Encontro dos Jongos. O evento reúne 450 lideranças e destaca a importância da cultura negra na região.

Leandro Fioravante
Leandro Fioravante Analista de Mercado de Streaming · 27 de julho de 2026
Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos
9.4/10
VereditoO Vale do Café celebra os 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, a Mestra Fatinha, com o 5º Encontro dos Jongos. O evento reúne 450 lideranças e destaca a importância da cultura negra na região.

Vale do Café celebra 70 anos de Mestra Fatinha e encontro dos Jongos

O Vale do Café celebra os 70 anos de Maria de Fátima da Silveira Santos, conhecida como Mestra Fatinha. A comemoração está entrelaçada ao Dia Estadual do Jongo, com a realização do 5º Encontro dos Jongos do Vale do Café, que ocorre no Parque das Ruínas de Pinheiral, no sul fluminense.

O evento, programado para este sábado (25), reunirá 450 lideranças de 18 quilombos e comunidades tradicionais de jongo dos estados do Rio de Janeiro e de São Paulo. Para Mestra Fatinha, essa reunião reafirma a cultura dos ancestrais e acontece em um local de grande simbolismo.

Nas duas áreas do Parque das Ruínas de Pinheiral, cedidas pela Prefeitura de Pinheiral, a organização Centro de Referência de Estudo Afro do Sul Fluminense (Creasf) desenvolve atividades para preservar e promover as origens culturais da região. O parque abriga a história da antiga Fazenda São José dos Pinheiros, uma das maiores fazendas de café do Brasil colônia, onde mais de 3 mil negros escravizados viveram. "A gente herdou essa tradição deles, e a gente mantém. São vários núcleos de jongueiros de várias famílias", explica Mestra Fatinha.

Ao longo de seus 70 anos de vida, Mestra Fatinha dedicou 50 deles à luta pela preservação da cultura negra no Vale do Café. "O jongo é a verdadeira bandeira de luta do povo preto, porque os negros escravizados usavam o jongo para se organizar, namorar, cantar a saudade da África e cultuar os orixás."

Mestra Fatinha compartilha que o movimento negro entre Rio e São Paulo era bastante forte no final dos anos 80 e início dos 90, período em que iniciou sua militância. Sua trajetória começou no Clube Palmares, o único clube social de negros do estado do Rio, localizado em Volta Redonda, cidade vizinha de Pinheiral. "Meus pais e avós sempre foram muito conscientes do que é ser negro nesse país. Na minha família sempre se trabalhou a cultura. Meu bisavô tinha corte de Moçambique, meu pai era jongueiro, sambista, músico, minhas tias cantavam, minha avó também. Minha mãe está com 93 anos e canta até hoje", acrescenta.

A dedicação de Mestra Fatinha à preservação da cultura negra foi reconhecida pelo meio acadêmico. "Ano passado a Universidade Federal Fluminense me concedeu o título de notório saber. Já estou dentro da UFF há mais de 10 anos fazendo Encontros de Saberes. É uma referência."

A importância de contar as próprias histórias é um aspecto que Mestra Fatinha destaca. "Isso é muito importante, principalmente, para as crianças e adolescentes, por sermos essa referência e eles valorizarem a luta dos que vieram antes de nós."

"Aqui no Vale do Café se trabalha muito a memória dos barões, e a gente vem fazendo a contramão contando a história do povo preto, porque o nosso povo é que construiu todo esse império", completa.

Graças ao trabalho cultural do Jongo de Pinheiral, a Fundação Palmares certificou a região como comunidade quilombola no ano passado. Agora, a intenção é prosseguir com o processo no Incra para delimitação da área. "É uma área histórica que vai dar mais visibilidade à nossa cultura e para a gente poder desenvolver com mais autenticidade tudo que a gente já faz."

Em 2005, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) reconheceu o Jongo como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil. Conhecido também como congo ou caxambu, segundo Mestra Fatinha, o jongo é uma manifestação cultural característica da Região Sudeste do Brasil.

O jongo é preservado por descendentes de pessoas escravizadas de origem Bantu, especialmente do Congo, Angola e Moçambique, que foram trazidas para trabalhar nas lavouras de café e cana-de-açúcar no Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo. Após a abolição, o jongo desceu a serra e chegou aos morros cariocas por meio de famílias que ajudaram a fundar futuras escolas de samba.

O 5º Encontro de Jongos do Vale do Café é uma realização conjunta do Jongo de Pinheiral, da Rede de Jongo do Vale do Café, do Instituto Floresta, da Rede de Patrimônio Imaterial do Estado do Rio de Janeiro e do Centro de Referência Afro do Sul Fluminense (CREASF), em parceria com a prefeitura de Pinheiral, os ministérios da Igualdade Racial e da Justiça, o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania (Pronasci) e o Museu Vassouras.

A programação do evento prossegue amanhã (26), quando será comemorado o Dia de Sant'Ana e o Dia Estadual do Jongo. Uma procissão em homenagem à santa, mãe de Maria e avó de Jesus Cristo, sincretizada como Nanã nas religiões de matriz afro-brasileira, será seguida de ladainhas em sua homenagem. A saída da procissão, uma tradição local com mais de 100 anos, está marcada para às 18h, na Casa do Jongo de Pinheiral.

Leia também

Publicidade