# Tragédia familiar causada pelo césio-137 é contada em documentário

> O documentário Lourdes e Leide, exibido no Festival Bonito CineSur, reconta a tragédia familiar causada pelo césio-137 em Goiânia. Em 13 de setembro de 1987, dois catadores de lixo encontraram material radioativo no prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia, desencadeando um dos maiores acidentes nucleares do Brasil.

*Zipflix · Streaming · 28 de julho de 2026 · Fábio Wenzel*

No dia 13 de setembro de 1987, dois catadores de lixo entraram no prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia, em Goiânia. O que encontraram mudou para sempre a vida de uma família. O curta-metragem Lourdes e Leide, exibido no Festival Bonito CineSur, reconta a tragédia

No dia 13 de setembro de 1987, há quase 40 anos, dois catadores de lixo entraram no prédio abandonado e em ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), no centro de Goiânia. Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves encontraram um equipamento de radioterapia abandonado e o levaram para a casa de um deles. Eles removeram o lacre da cápsula e encontraram um pó semelhante a sal de cozinha, que emitia um intenso brilho azul no escuro. Era o césio-137, um material radioativo. Eles foram as primeiras vítimas do maior incidente radiológico da história do Brasil, recontado no curta-metragem _Lourdes e Leide_, do diretor de cinema Angelo Lima, exibido no Festival Bonito CineSur, no Mato Grosso do Sul.

O documentário _Lourdes e Leide_, filmado no ano passado, volta a denunciar o sofrimento gerado pelo episódio, acompanhando o cotidiano solitário de dona Lourdes, tomado pelas memórias da filha Leide, que morreu pela exposição ao césio aos 6 anos de idade.

## O que o documentário revela sobre a tragédia do césio-137

"Foi uma tragédia silenciosa", disse o diretor Angelo Lima. "Isso foi uma tragédia dentro de uma família, uma família que sofreu muito e perdeu várias pessoas, imediatamente". Bastante emocionado, o diretor conversou com a reportagem da Agência Brasil logo após a exibição no Bonito CineSur.

"Eu sempre culpo o Estado. Eu não vou culpar os catadores, nem vou culpar a família. Essa é uma tragédia que eles não tinham dimensão do que era. E alguma coisa precisa ser feita para reparar esses danos".

### Como o material radioativo chegou à família

A substância radioativa chegou à casa de Lourdes e Leide alguns dias depois de ter sido encontrada no IGR. Sem saber a gravidade do que tinham em mãos, Wagner Mota Pereira e Roberto Santos Alves decidiram vender esse material para um ferro-velho que pertencia a Devair Alves Ferreira, que também ficou encantado com a luminosidade. Devair apresentou a descoberta para a esposa e o distribuiu para familiares e amigos. Sem saber do perigo, as pessoas manipulavam o material, o que causou sintomas imediatos como náuseas, tonturas, vômitos e diarreia.

O irmão de Devair, Ivo Ferreira, levou um pouco dessa substância contida na cápsula para a filha, Leide das Neves, que ingeriu as partículas do césio. A gravidade da exposição fez com que a menina morresse poucos dias depois, em 23 de setembro. Ela precisou ser enterrada em um caixão de chumbo de 700 quilos para conter a radiação que seu corpo ainda emitia. Além dela, outras três pessoas morreram entre quatro e cinco semanas após exposição àquela radiação.

## A dor que não passou: a perda recente de Lucimar

Nesta última semana, dona Lourdes perdeu mais um filho, Lucimar das Neves Ferreira. Ele tinha 14 anos de idade quando o acidente com o césio ocorreu. "O Lucimar era um menino que foi internado [na época do acidente radioativo] e ganhou uma pensão também do Estado. Mas, aí, ele começou a beber muito, sabe? E teve um enfisema pulmonar violento. Ela [Lourdes] está muito chocada", contou o diretor.

Segundo o presidente da Associação das Vítimas do Césio-137 (AVCésio), Marcelo Santos Neves, a morte de Lucimar o fez relembrar dos dias difíceis provocados por esse acidente radioativo. "A gente se entristece porque, com essa perda, tudo relembra aqueles dias difíceis", disse Neves, em vídeo publicado nas redes sociais da associação. "Agora, a gente tem que dar o máximo de apoio possível, porque vai ser muito dolorido para ela [para a mãe, Lourdes], por mais que ela já esteja calejada com essas dores de perda da filha", completou.

## O estigma social que destruiu uma família

Para o diretor do curta, a família de dona Lourdes já sofreu demais com esse episódio. "Essa é uma tragédia violenta. Essa família foi totalmente abalada [por conta desse acidente radioativo]. Naquela época, eles não podiam chegar na rua, está me entendendo? Na rua, as pessoas falavam: 'olha aí o pessoal do Césio' e trancavam as portas, sabe? Eles tiveram que se mudar várias vezes", contou Lima. "Isso acaba com a vida de todo mundo. Destrói famílias", ressaltou o diretor.

O curta _Lourdes e Leide_ foi exibido na noite desta segunda-feira (27), no Bonito CineSur, festival que acontece até o próximo sábado (1º), na cidade de Bonito. Além da exibição do documentário, o festival promove uma pequena exposição de fotos que ajuda a contar a história sobre esse acidente com o césio-137. Entre as imagens, há fotos da pequena Leide e também do seu enterro. "No enterro da Leide, chegaram a jogar pedras", contou o diretor. "Naquela época, eles [os familiares] sofreram coisas muito fortes assim".

## O que o documentário acrescenta ao debate sobre o césio-137

Em sua visão, essa tragédia "poderia acontecer com qualquer um" e, por isso, a sociedade brasileira precisaria estar mais preparada para enfrentar situações como essa. "Eu acho que, em termos governamentais, nada mudou. As pessoas esqueceram disso rapidamente, porque quiseram esquecer rapidamente. E não tiveram humanidade", disse Lima.

O documentário _Lourdes e Leide_ não apenas reabre a ferida de uma tragédia nacional, mas também expõe um padrão de abandono estatal que persiste por décadas. Ao focar na história de uma família, o filme transforma o dado frio do acidente radiológico em uma experiência humana concreta. O espectador é levado a refletir sobre o custo real do descaso com materiais perigosos e sobre como o estigma social pode ser tão devastador quanto a radiação.

## Perguntas Frequentes

### O que foi o acidente com o césio-137 em Goiânia?

Foi o maior incidente radiológico da história do Brasil, ocorrido em 13 de setembro de 1987, quando dois catadores de lixo encontraram uma cápsula de césio-137 em um prédio abandonado do Instituto Goiano de Radioterapia e a levaram para casa, contaminando familiares e amigos.

### Quem são Lourdes e Leide?

Leide das Neves era uma menina de 6 anos que ingeriu partículas de césio-137 e morreu em 23 de setembro de 1987. Lourdes é sua mãe, que perdeu também o filho Lucimar recentemente, e é a protagonista do documentário.

### Onde o documentário Lourdes e Leide foi exibido?

O curta-metragem foi exibido no Festival Bonito CineSur, em Bonito, Mato Grosso do Sul, na noite de 27 de julho de 2026.

### Quantas pessoas morreram no acidente do césio-137?

Além de Leide, outras três pessoas morreram entre quatro e cinco semanas após a exposição à radiação, totalizando quatro vítimas fatais diretas na época.

### O que o documentário denuncia?

O filme denuncia o sofrimento gerado pelo episódio, o estigma social sofrido pela família e a falta de reparação por parte do Estado, que o diretor Angelo Lima aponta como principal responsável pela tragédia.

### Quem dirigiu o documentário Lourdes e Leide?

O curta-metragem foi dirigido por Angelo Lima.

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Fonte (canonical): https://zipflix.com.br/streaming/tragedia-familiar-causada-pelo-cesio-137-contada-documentario/
